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Vinicius de Moraes - Desalento

Desalento

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

Vinicius de Moraes

Vinicius Moraes - Palavras Bonitas

SONETO DO AMOR DEMAIS

Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

Não amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paixão do que se der à coisa amada

E que não sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim só quer amor - mais nada.

Vinicius de Moraes

Palavras Bonitas Poemas Belos

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

Palavras Bonitas de Vinicius de Moraes

A Felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como uma pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
por um momento de sonho para fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou de jardineira.
Pra tudo se acabar na quarta feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como uma gota de orvalho
Numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa louca
Mas tão delicada também.
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

Vinicius de Moraes

Poema Vinicius de Moraes - Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

Vinícius de Moraes - Soneto de Intimidade

Soneto de Intimidade


Nas tarde da fazenda há muito azul demais.


Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora


Mastigando uma capim, o peito nu de fora


No pijama irreal de há três anos atrás


Desço o rio no vau dos pequenos canais


Para ir beber na fonte a água fria e sonora


E se encontro no mato o rubro de uma amora


Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.


Fico ali respirando o cheiro bom do estrume


Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme


E quando por acaso uma mijada ferve


Seguida de um olhar não sem malícia e verve


Nós todos, animais, sem comoção nenhuma


Mijamoe em comum numa festa de espuma.


(Vinícius de Moraes)

Vinícius de Moraes - Soneto de Fidelidade

Soneto de Fidelidade


De tudo, ao meu amor serei atento


Antes, e que com tal zelo, e sempre, e tanto


Que mesmo em face do maior encanto


Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar me pranto


Ao seu pesar pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure


Quem sabe a morte, angústia de quem vive


Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa dizer do amor (que tive):


Que não seja imortal, posto que é chama


Mas que seja eterno enquanto dure.


(Vinícius de Moraes)